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CARTA À PÁTRIA

30/10/2021

Piauí | 2 min | Animação | 2020

Direção: Nelson Moura Fé

A Morte orquestrando a história necropolítica do nosso povo marcada por guerras, sangue e fogo. É assim que Nelson Moura Fé descreve sua animação na breve sinopse disponibilizada para a curadoria da Parada de Cinema 2021.

O Word não reconhece, pelo menos não na versão que estou utilizando neste momento, a palavra necropolítica. Sublinha nosso triste presente de vermelho. Atrasado o meu Word está. Não acompanha os descompassos tortos do Brasil. Da mesma maneira que a Morte conduz o hino nacional – a sirene do teatro antes de começar a apresentação aqui é a sirene de uma ambulância –, em notas dissonantes, sem a pompa e a reverência dos jogadores antes da partida de futebol.

O jogador fazendo arminha, concluindo a sequência dos nossos atiradores oficiais, diz tudo: o hino foi sequestrado em símbolo da distopia social que enegreceu o país.Moura usa representações claras e fortes para fazer desses dois minutos de regência da Morte o retrato cru, seco e acurado da realidade brasileira recente.

E haja vermelho tomando a tela, traços rasurados na forma de alguém baleado, instrumentos desafinados, panelas sendo batucadas, vozes se entrepondo numa harmonia suja e caótica. Assim, em “nossos bosques têm mais vida” o que surge é o fóssil de algum animal que certamente morreu de fome, bem como a justiça vendada segurando a balança numa mão e uma arma na outra, atualizando o “mas, se ergues da justiça a clava forte”.

A clava forte… Daria para rir da ironia cáustica de Moura Fé se tudo isso não reverberasse em nós com o mesmo gosto amargo dos noticiários matinais e da estupidez da dimensão paralela das redes sociais. A pátria banhada de sangue e desesperança. No meu Word, necropolítica continuará sublinhada de vermelho pelo programa. Esses dois minutos ferem e cauterizam a retina em loop.

Um dia a mais de sobrevivência é tudo o que aqueles que ainda não tombaram podem celebrar.

Por: Monteiro Júnior