Fluido

Fluido

Piauí | 18min | Documentário | 2021
Direção: Juhx

 

Na caixinha não cabe o fluido

O curta FLUIDO, Juhx (PI), é um happening delicioso porque poderia perfeitamente ser passado nas salas de aula das escolas de Teresina.

Fluido informa, explica, expõe e questiona seus conceitos e definições e se você for capaz de se ligar ao que a artista está transmitindo, então você terá uma experiência super potente.

Não sei se você conhece o enorme talento de Juhx, mas é tal que um dia ela foi me maquiar para uma festa, enquanto me explicava o conceito que eu só percebi realmente do que ela estava falando quando fui na Capela Cistina e vi a bunda de Deus pintada por Michelângelo — se um dia você me ver na rua, me pergunta mais sobre isso que terei grande prazer em explicar.

Ma se o talento visual e de conteúdo de Juhx eu já conhecia, preciso destacar aqui a equipe que a ajudou a fazer seu filme. Uma galera que construiu seu know how montando e editando vídeos promocionais para festas de drag queens de Teresina, e aqui eu cito expressamente o Alefone. Esse cara sabe muito bem o que está fazendo quando está montando e editando e eu não sei se ele já está fazendo isso profissionalmente. Se não estiver, fique à vontade para se lançar no mercado, e quem estiver procurando um bom editor/montador, vê se ele está disponível. O cara manja.

Ele e Juhx juntos criaram uma sequência digna de arrepio da famosa cena do olho cortado em O Cão Andaluz, do Buñuel e Salvador Dali.

Juhx é artista que domina muitas linguagens e eu sei como foi difícil para ela realizar esta obra. Pois parabéns, você criou uma obra necessária e que deveria passar nas escolas.

 

[Por Ítalo Damasceno]

Suellen e a Diáspora Periférica

Suellen e a Diáspora Periférica

Minas Gerais | 4min | Documentário | 2020
Direção Renata Dorea

 

Quo vadis, Suellen?*

“Foto é um espelho com memória”. Não me lembro de quem é esta frase, mas ela não saiu mais da minha cabeça desde quando vi SUELLEN E A DIÁSPORA PERIFÉRICA, de Renata Dorea (MG).

Em um sentido direto, claro que me refiro à montagem simples, bela e eficiente utilizando apenas retratos da vivência íntima de Renata Suellen — vou chamá-la assim porque este texto não é para a Renata-diretora, nem para a Suellen-personagem, é para a Renata Suellen que está entre as duas e que é as duas, ao mesmo tempo que é outra — e sua família, que saíram de São João do Meriti (RJ) para ir viver em outro lugar em busca de uma vida melhor, mais tranquila com sorte.

Renata usa as fotos de Suellen para nos contar que havia esquecido de Sullen e agora vai lembrar. Que uma diáspora não é só um processo de deslocamento, é também de esquecimento, de tentar esquecer. E o quanto a Baixada Fluminense, geralmente citada como ponto final de pessoas que vieram dos outros lugares e acabaram por lá, na história de Renata Suellen é seu ponto de partida.

Aliás, o ponto de partida continua lá. A avó continua lá, o rio continua lá enchendo, o Rio continua lá enchendo.

O ponto de partida pode virar ponto de chegada mais uma vez, por que não? Por enquanto, ficar aqui tá bom, diz a voz da avó sobre as imagens do google maps (que a gente esquece, mas também são fotos). Elas também contam a história. E a avó fala até a hora da última diáspora, aquele que todo mundo faz sozinho e que não se tem notícia de volta.

Renata tá em Minas Gerais. Suellen parece viajar para Minas agora. Renata Suellen “é apenas um retrato na parede. Mas como dói”. E como é lindo.

*Tradução: Onde vais, Suelle?

[Por Ítalo Damasceno]

Urubá

Urubá

Rio Grande do Norte | 15 min | Documentário | 2021
Direção: Rodrigo Sena

 

Seu Luiz perdeu os dois olhos para o glaucoma. Sua mãe também. Seu pai também. Seu irmão também. Mas seu Luiz tem mais uma forma de visão: é quando ele incorpora no terreiro.

Em URUBÁ, filme de Rodrigo Sena (RN), somos apresentados à vivência de Luiz, sobretudo a da sua fé. Ele mora no terreiro e leva uma vida simples. Mas quando o batuque começa, Luiz de Yemanjá domina o salão.

Como é bonito vê-lo baiar, no movimento contínuo na tela. Um registro sincero de uma religião no que ela tem de mais profundo.

Luiz diz que fala alto e canta alto que é para o orixá ouvir. Urubá é um grito alto que diz que o orixá tá vivo, que o orixá é tudo e que Luiz é feliz em sua fé.

 

[Por Ítalo Damasceno]

Praia dos tempos

Praia dos tempos

 

Bahia | 11 min | Ficção | 2021
Direção: Luan Santos

 

A simplicidade da produção – são praticamente dois cenários que se revezam, com a câmera sempre na mão, muitas vezes desengonçada, sem “técnica” – só evidencia a potência de uma mensagem transmita com clareza.

Junto com os ecos do afeto que quase não se contém nos limites dos quadros dirigidos por Luan Santos, e por várias vezes a falta de uma pretensa sofisticação narrativa é o que permite a história ser pura a ponto de ir sem escalas intelectualizantes para o coração do espectador.

Um curta que não precisa de discursos para si explicar, de teorias, de referências obscuras e autocontidas; o filme fala por si só, transita por lugares, tempos, questões, questiona e responde sem qualquer necessidade de diálogo entre suas personagens.

Entre as versões de sua personagem, seria mais acurado dizer, fazendo a história – sim, tudo é história, ação, movimento, parte de algo para chegar em outro, mesmo sem sair do lugar – avançar na sinergia das três atrizes.

Tratar da autoaceitação, do preconceito de cor, da gordofobia, nunca será fora de tempo enquanto não for matéria social superada, riscada da cartilha e da programação cultural da vida em sociedade; corpos são corpos e devem ocupar os mesmos espaços.

Ainda bem que a produção audiovisual independente está livre dos algoritmos que padronizam os padrões de beleza a serem plastificadas.

Ainda…

 

[Por F. Monteiro Júnior]

Prosopopeia

Prosopopeia

Ceará | 22min | Ficção | 2021
Direção: Andréia Pires

 

Que grata surpresa foi o filme Prosopopeia, de Andréia Pires. Tenho a impressão que, quando pensamos em ficções em curtas metragens, imaginamos filmes simples, uma história ligeira e barata. Prosopopeia quebra qualquer expectativa dessas por ser inteiramente cantado.

Uma trupe está presa em casa, cada um pensando como resolver o problema que é a vida. Tanta arte não conseguiria ficar ali confinada por muito tempo, ela precisa explodir.

Andréia dirigiu, escreveu o texto e compôs todas as músicas! Isso é bastante louvável, ainda mais quando o resultado é aquele que vemos na tela.

Fiquei pensando em algo que se pareça com este filme e pensei na série da Globo, “Hoje é dia de Maria”. Mas ao compararmos as duas obras, a gente vê quem veio primeiro. Na produção global, o que é trabalhado para virar estilo, é a matéria prima de Prosopopeia, porque é o viver cotidiano de seus realizadores.

O cinema do Ceará faz tempo que está mandando muito bem e, para finalizar, se interessar a alguém, gostaria de dizer que Prosopopeia foi um filme que me deixou feliz.

 

[Por Ítalo Damasceno]

Hortelã

Hortelã

Piauí | 14 min | Ficção | 2021

Direção: Thiago Furtado

 

Histórias de amor são sempre histórias de como encontramos e perdemos pessoas e o apoio com o qual contamos nos momentos mais delicados.

A sacada do curta de Thiago Furtado e Ítalo Damasceno é contar essa história pelo ponto de vista desse apoio emocional, que calha de ser o mesmo para ambos os jovens em fim de relacionamento.

Dinha trabalha na casa de um e é avó de outro.

E esse artifício dramático pode até soar artifício de roteiro [e é], mas é um bom gatilho para entrelaçar todos os temas e as questões que o filme atravessa.

Thiago e Ítalo assinam juntos o “crédito de vaidade”, embora o primeiro assine a direção e o segundo divida com o outro a autoria do roteiro.

Não é a primeira vez que vejo esse tipo de movimento recentemente, diretor e roteirista compartilharem a “autoralidade” da produção.

Fiz isso em “No Meio do Caminho”, um média esquecido lá de 2004, quando usei “Um filme de” para listar a equipe inteira – a fim de conferir justiça e baixar um pouco a bola da teoria do autor.

Tolas pretensões à parte, depois disso nunca mais usei o “crédito de vaidade”; há tão pouco tempo para ser vaidoso na jornada que é produzir algo no nosso país… ou nosso Estado.

Trouxe isso à tona porque esta parece ser uma época mais propícia que a de 2004 para refletirmos e questionarmos certos paradigmas que extrapolaram seu próprio tempo e apenas se automatizaram, perderem o sentido inicial.

Volto ao filme.

Thiago Furtado oferece uma direção descomplicada, e toda a simplicidade cinestésica do filme permite que a história avance com delicadeza e desenhe sem atropelos a atmosfera afetiva dos personagens.

Na verdade, o diretor deixa que os personagens guiem a narrativa, apoiando-se, até onde é possível, no que cada ator tem a oferecer.

Ao lado de nomes já consagrados por essas bandas como Silmara Silva [numa ingrata “vilã” arquetípica] e Edite Rosa [o estereótipo oposto], os ainda poucos conhecidos Zé Reis e Nilton Barbosa apresentam a desenvoltura responsável pelas cenas de maior verdade da produção, sejam contracenando entre si ou com as duas atrizes.

O casting desses meninos sem dúvida é o que há de refrescante aqui.

Junto com o olhar absolutamente comovente de Edite Rosa, cuja Dinha é o coração que tenta colar os corações quebrados.

Com uma ajudazinha marota do chá de hortelã.

 

[Por F. Monteiro Júnior]